Impacto negativo da pandemia na oferta do transporte marítimo

Entre janeiro e março de 2020, as economias asiáticas pararam. A partir de abril, a procura desceu. As mercadorias de combate à transmissão do COVID-19, como álcool-gel, máscaras e luvas, passaram a fazer parte do dia a dia, tendo sido alvo de uma grande procura e aumento de preço.

Os armadores reduziram a sua capacidade de oferta, mas não a voltaram a ajustar quando a procura normalizou.

Neste momento, em plena segunda vaga e a caminho de uma terceira, a procura não está ajustada à oferta, o que implica uma distorção da concorrência e tendência de monopólio. Falamos de 2 a 4 players mundiais, que aproveitaram este tempo anormal e as circunstâncias excecionais para aumentarem exponencialmente os custos do transporte marítimo, de tal forma que 2020 poderá vir a demonstrar-se um ano extremamente lucrativo, afinal.

Denis Choumert, presidente do Conselho Europeu de Carregadores, e Willem van der Schalk, presidente da CLECAT, já alertaram para este grave problema: distorção da concorrência, regimes particulares e específicos que privilegiam o setor, aproveitamento das distorções provocadas pela pandemia e preços muito inflacionados, que, caso não sejam resolvidos, irão levar a roturas nas cadeias de abastecimento do comércio ocidental e ao desaparecimento de várias outras entidades da cadeia logística.

Mais recentemente, a APAT, Associação dos Transitários de Portugal, e o Conselho Português de Carregadores solicitaram a intervenção da Presidência Portuguesa para sensibilizar a Comissão Europeia a atuar.

Só podemos esperar que os Armadores percebam o seu papel na recuperação da economia pós-pandémica e não promovam interesses corporativistas e de classe ou setor.

Também deveremos reequacionar as cadeias de abastecimento e a localização dos países produtores. Os países do oriente já perceberam isso e já iniciaram o seu percurso. O acordo de parceria económica abrangente regional (RCEP) recentemente assinado é disso um exemplo.

A Europa Ocidental não pode ficar refém das suas guerras internas, dos seus egoísmos, do seu egocentrismo, da sua cega superioridade história.

É necessário regressar a uma situação em que os acordos sejam efetivamente respeitados para que a recuperação pós-pandémica da economia europeia não seja (ainda) mais difícil e demorada.


Marta Borges

Janeiro 2021

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